Respostas

Quando o homem observa objetivamente as situações à sua volta e a condição humana, ele obtém uma verdadeira apreciação da criação. A existência do Criador tem implicações para nós, segundo os Kabbalistas, que realizaram a capacidade inerente de se comunicar diretamente com Ele, e se Ele controla tudo e criou as situações da vida em que nos encontramos constantemente, então a coisa mais sensata a fazer é estarmos permanentemente unidos a Ele, e quanto mais perto, melhor.

Mas se tentarmos mesmo e tivermos sucesso nesse feito, então, já que o Criador está oculto de nossas percepções, sentiremos como se estivéssemos suspensos no ar, sem nenhum suporte. Pois sem ver, sentir, ou ouvir, sem nenhum impulso sensorial, estaríamos como antes, gritando na selva.

Por que, então, o Criador nos fez de um modo que não podemos percebê-Lo? E ainda, por que Ele se esconde de nós? Por que, mesmo quando o homem apela a Ele, Ele não responde, mas prefere nos afetar de um modo oculto, velado por trás da natureza e de outras pessoas?

Se ele quisesse nos corrigir, isto é, corrigir Seu próprio “erro” na criação, ele teria feito isso há muito tempo, abertamente ou não. Se ele Se revelasse a nós, nós todos O veríamos e apreciaríamos com os sentidos e a inteligência com que Ele nos dotou, e certamente, então poderíamos saber o que fazer e como fazer no mundo que Ele criou, supostamente para nós.

E mais ainda, paradoxalmente, assim que o homem se esforça para atingir o Criador, para senti-Lo, para se aproximar Dele, ele sente seu anseio pelo Criador sumir, desaparecer. Mas, se o Criador nos dá todas as nossas experiências, por que Ele despreza aqueles que querem percebê-Lo com toda a vontade, e até mesmo coloca vários obstáculos em seu caminho de tentativas de perceber seu Criador?

As tentativas do homem de se aproximar do Criador, e a recusa do Criador, e a Sua imposição de sofrimentos sobre aqueles que O procuram, podem continuar por anos! Ocasionalmente, no auge do desespero, a pessoa pode sentir que o orgulho e a arrogância de que segundo lhe disseram, ela deveria se livrar,  são infinitamente mais características do Criador!

Ao contrário da afirmação de que o Criador é piedoso, especialmente com aqueles que O procuram, o homem não recebe resposta às suas lágrimas e apelos. Se nós podemos mudar algo em nossas vidas, isso significa que Ele nos deu livre escolha, mas não, conhecimento suficiente para evitar os sofrimentos de nossa existência e desenvolvimento.

E se não há livre escolha, o que então pode ser mais cruel do que nos fazer sofrer insensivelmente por décadas no mundo cruel que Ele criou? É claro, essas tristezas podem prosseguir indefinidamente, pois se o Criador é a causa de nossa condição, nós temos muito a criticar e a culpá-Lo, o que nosso coração faz, se ele sente desse modo.

Pois se o homem está descontente com alguma coisa, ele culpa o Criador apenas se sentindo desse modo, mesmo que não se dirija a Ele de fato, mesmo se ele não acredita na existência do Criador: pois o Criador vê tudo o que se passa no coração do homem.

Cada um de nós tem razão no que mantém, seja o que for, porque mantemos aquilo que estamos percebendo no momento, com nossos sentidos, e analisando com nossa própria inteligência. Aqueles que têm vasta experiência de vida sabem o quão drasticamente seus pontos de vista mudaram ao longo dos anos.

Não se diga que estávamos errados antes e agora estamos certos, porque nosso ponto de vista atual também está errado, como veremos amanhã. Assim, as conclusões que tomamos em qualquer situação são corretas para essa situação em particular, mesmo que estejam em direta oposição a nossas conclusões, tiradas em outras situações.

Pelos mesmos sinais, não podemos raciocinar sobre outros mundos, ou suas leis, ou julgá-los tendo por base nossos critérios usuais – os critérios de nosso mundo. Nós não possuímos inteligência sobrenatural, ou percepções, ou conceitos, e assim não podemos julgar e emitir julgamento, pois erramos constantemente mesmo dentro dos limites de nosso próprio mundo.

Somente aquele que possui qualidades sobrenaturais pode julgar o sobrenatural. Se ao mesmo tempo ele também possui qualidades terrenas, ele pode ao menos descrever o sobrenatural para nós. Tal pessoa somente pode ser um Kabbalista – uma pessoa de nosso mundo, criada com as mesmas qualidades que cada um de nós, mas simultaneamente dotada pelos céus com outras qualidades que o capacitam a nos falar sobre o que está acontecendo nesse outro mundo.

É por isso que o Criador permitiu a alguns dos Kabbalistas que revelassem seu conhecimento para uma vasta camada da sociedade, de modo a ajudar os outros a aprender como se comunicar com Ele. Os Kabbalistas nos explicam, em termos que podemos compreender, que a estrutura e o funcionamento da mente no mundo espiritual, sobrenatural, são baseados em leis contrárias às nossas.

Não há muro separando nosso mundo do mundo sobrenatural, espiritual. Mas o fato de que o mundo espiritual é, conforme suas propriedades, um anti-mundo, o coloca muito além de nossa percepção, pois desde que nascemos em nosso mundo, isto é, adquirimos sua natureza, esquecemos completamente tudo sobre nossa anti-condição passada. Naturalmente, o único caminho para o homem perceber esse anti-mundo é adquirir sua natureza, sua razão, suas qualidades. Como e em que precisamos mudar nossa natureza para a oposta?

A lei básica do mundo espiritual é o absoluto altruísmo. Como o homem pode adquirir essa qualidade? Os Kabbalistas sugerem que nós façamos uma transformação dentro de nós mesmos. Somente esse ato interno pode tornar o homem capaz de perceber o mundo espiritual e começar a viver em ambos os mundos. Esse ato é chamado “fé acima da razão”.

Em nosso mundo nós somos guiados apenas por nossa razão em tudo o que fazemos. Somente a razão, isto é, o cálculo puramente egocêntrico, “razoável”, constitui a base de todos os nossos desejos e ações. Nossa razão calcula a quantidade de prazer que experimentamos e compara essa quantidade com a quantidade de sofrimento causada pelos esforços feitos para atingir aquele prazer; subtrai uma da outra e produz o resultado desejado: se devemos nos esforçar na direção do prazer o preferir a paz. Essa aproximação “razoável” do ambiente é chamada “fé conforme a razão”, quando a razão determina a fé.

Freqüentemente o homem age sem nenhum cálculo do benefício ou do esforço, como por exemplo um fanático, ou uma pessoa condicionada a agir de determinada forma. Tais atos “cegos” são chamados “fé abaixo da razão”, pois eles são determinados pela obediência cega a decisões tomadas por outra pessoa, em vez da razão ou do cálculo. Ou ainda, os atos do homem são ditados por sua educação, que se tornou sua segunda natureza, a um tal ponto, que ele tem que fazer um esforço para evitar agir do modo como foi condicionado, e assim age automaticamente pela força do hábito. Cada um de nós faz muitas coisas por uma razão similar.

O mundo espiritual é um mundo altruísta. Todos os desejos e atos que existem lá são ditados não pela razão do homem, ou o egocentrismo, mas pela fé, isto é, pelo sentimento do Criador.

A transição do viver de acordo com as leis de nosso mundo para o viver de acordo com as leis do mundo espiritual requer o encontro de duas condições. Desprezando completamente os argumentos da razão, o homem se encontra, como antes, desprovido de base para as suas ações, sentindo falta de qualquer apoio. Suspenso no ar, ele se agarra ao Criador com ambas as mãos – somente o Criador determinará suas ações. Por assim dizer, o homem substitui sua própria cabeça pela do Criador, e age contrariamente à sua própria razão; ele coloca o desejo do Criador acima do seu. É por isso que seu comportamento é chamado “fé acima da razão”.

Tendo cumprido isto, o homem começa a perceber tanto o nosso mundo quanto o espiritual, e descobre que ambos funcionam de acordo com a mesma lei espiritual da “fé acima da razão”.

Esse desejo por parte do homem, de suprimir sua razão e ser guiado apenas por seu desejo de se doar ao Criador, é o vaso espiritual no qual ele recebe todas as sensações e realizações espirituais. A “capacidade” desse vaso, isto é, a capacidade da razão espiritual do homem, é determinada pela capacidade dessa razão terrena, egocêntrica que ele está tentando suprimir.

Parta aumentar a capacidade do vaso espiritual humano, o Criador gera constantemente obstáculos cada vez maiores no caminho da “fé acima da razão”, intensificando gradualmente seus desejos egocêntricos e dúvidas acerca do domínio do Criador. Isso permite ao homem vencer gradualmente esses obstáculos, e então desenvolver desejos altruístas cada vez mais poderosos, aumentando a capacidade de seu vaso espiritual e percebendo cada vez melhor o Criador, no mundo de sua semelhança com Ele.

Se o homem pode agarrar mentalmente o Criador com ambas as mãos, isto é, ignorando a abordagem crítica da razão e se regozijando com o fato de que tal oportunidade tenha se apresentado, e se ele consegue suportar essa condição ainda que seja por um instante, ele verá o quão maravilhoso é esse estado, pois é nesse estado que ele terá atingido a verdade real e eterna, que não mudará amanhã, como suas crenças anteriores mudaram, porque então ele estará unido com o Criador eterno e observará todos os eventos através somente dessa verdade.

Como foi mencionado antes mais de uma vez, o progresso somente é possível através de três linhas paralelas simultaneamente, em que a linha da direita é a fé, e a esquerda o conhecimento e a compreensão. Essas duas linhas estão em disparidade, pois são reciprocamente contraditórias. Assim, o único meio de equilibrá-las mutuamente é uma linha intermediaria, feita ao mesmo tempo das duas outras linhas, a direita e a esquerda, que é a linha daquele comportamento espiritual em que a razão é usada somente de acordo com a força da fé.

Sobre todos os objetos espirituais, na ordem em que foram feitos pelo Criador, pode-se dizer que são compreendidos Nele. Tudo no universo, que está compreendido no Criador, existe somente em relação às criaturas, e tudo isso é produto da criatura original chamada Malchut. Ou seja, todos os mundos e todas as criaturas, tudo, exceto o Criador, é somente uma única criatura – Malchut, chamada a raiz, a fonte de todas as criaturas, que então decresce em muitas partes menores dela mesma.

E todas elas, tomadas em conjunto, são chamadas Sh’chinah. E a luz do Criador, Sua presença, Ele mesmo preenchendo a Sh’chinah, é chamado Shochen.

O tempo necessário para que todas as partes da Sh’chinah sejam completamente preenchidas é chamado o tempo da correção. Durante esse tempo, as criaturas fazem correções em suas partes da Malchut – cada uma na parte respectiva com que foi criada.

E até o momento em que o Criador possa estar completamente unido com as criaturas, isto é, até que ele Se revele inteiramente a elas, até que o Shochen preencha a Sh’chinah, a condição da Sh’chinah, ou as criaturas de que consiste, é chamada o banimento da Sh’chinah (do Criador), pois nessa condição não há perfeição nos mundos superiores; e assim também em nosso mundo, o mais inferior de todos, no qual cada criatura precisa também se tornar totalmente consciente do Criador, embora estejam todos ocupados satisfazendo os pequenos desejos de nosso mundo e seguindo cegamente as exigências de sua própria carne.

E essa condição da alma é chamada Sh’chinah em cinzas, em que todos vêem os prazeres puramente espirituais como invenção ou nonsense, e essa condição é chamada o sofrimento da Sh’chinah.

Todos os sofrimentos humanos têm origem no fato de que o homem é compelido pelo Alto a rejeitar completamente todo o senso comum e a proceder cegamente, colocando a fé acima da razão.

Quanto mais razão e conhecimento ele possua, quanto mais forte e mais inteligente ele seja, mais difícil será para ele percorrer o caminho da fé, e correspondentemente, piores serão os seus sofrimentos na rejeição do senso comum.

De modo algum, ele, que escolheu esse modo particular de desenvolvimento espiritual, pode concordar com o Criador. Em seu coração ele amaldiçoa a necessidade de um tal caminho e nem por auto-sugestão ele consegue justificar o Criador. E ele não pode suportar tal condição de não ter apoio de nenhuma espécie, até que o Criador o ajude e lhe revele o inteiro quadro da criação.

Quando o homem sente que está em um estado de elevação espiritual, que todos os seus desejos estão focalizados somente no Criador, essa é a melhor época para se aprofundar nos livros apropriados da Kabbalah, de modo a tentar entender seu significado profundo. Embora ele possa sentir que não consegue entender nada apesar de seus esforços, assim mesmo é necessário se aprofundar na Kabbalah uma vez após outra, centenas de vezes, e não dar vazão ao desespero, a cada vez que não consegue entender alguma coisa.

O sentido desses empreendimentos está em que os esforços do homem para compreender os mistérios da Kabbalah são sua prece para que as manifestações do Criador se revelem a ele, para que o Criador satisfaça seus anseios. A força da prece é determinada pela força dos anseios.

Há uma regra: o esforço gasto em atingir alguma coisa aumenta o desejo para atingir essa coisa, e a força desse desejo é determinada pelo sofrimento causado pela indisponibilidade daquilo que desejamos. A prece é o próprio sofrimento, não expresso em palavras mas apenas sentido no coração.

Partindo daí, podemos entender que somente após um esforço extenuante para atingir o que deseja, o homem pode rezar tão sinceramente, que receberá isto.

Se durante suas tentativas de se aprofundar na leitura, o coração da pessoa ainda não está livre de pensamentos externos, então a mente não será capaz de se devotar exclusivamente aos estudos, pois a mente obedece ao coração.

Para que o Criador ouça a prece, ela precisa vir do coração dos corações, isto é, todos os desejos da pessoa precisam estar concentrados nessa prece. E é por isso que é preciso se aprofundar no texto centenas de vezes, mesmo sem entender nada, somente para atingir um verdadeiro desejo, para que o Criador possa ouvi-lo.

O verdadeiro desejo é aquele que não deixa espaço para nenhum outro desejo.

Ao mesmo tempo, enquanto estuda a Kabbalah, a pessoa estuda as ações do Criador e assim, aproxima-se Dele, e gradualmente torna-se merecedora de compreender aquilo que está estudando.

A fé, isto é, a consciência do Criador, precisa ser tal que a pessoa sinta que está na presença do Rei do universo. Então, sem dúvida, ela será imbuída do necessário sentimento de amor e temor.

Até que ela atinja uma tal fé, a pessoa precisa sempre se esforçar adiante, pois é somente esse sentimento que lhe dará o direito à vida espiritual e evitará que ela afunde no egocentrismo, e novamente se torne uma caçadora de prazeres. A necessidade dessa consciência do Criador precisa ser permanente, até que se torne um hábito, como a necessidade permanente do ser amado, que faz a vida sem ele intolerável.

Tudo o que cerca o homem, propositalmente, obscurece essa necessidade, pois experimentar prazer vindo de alguma coisa instantaneamente reduz a dor do vazio espiritual.

Assim, enquanto goza os prazeres de nosso mundo, é vital evitar que esses prazeres obscureçam a necessidade de perceber o Criador e assim, roubem da pessoa as sensações espirituais.

Em geral, a compulsão interna para perceber o Criador é peculiar apenas do homem, e nem mesmo de todos aqueles que têm a aparência externa de homem.

Essa compulsão tem origem na necessidade do homem de entender o que ele é, e de compreender a si mesmo e seu propósito no mundo, a fonte de sua origem. É a busca por respostas sobre nós mesmos que nos leva à compulsão de procurar a fonte da vida.

Essa compulsão faz com que não poupemos esforços para resolver todos os mistérios da natureza, não deixando nenhum mistério sem solução, sejam em nós mesmos, seja em nosso ambiente. Mas apenas o anseio por perceber o Criador é verdadeiro, pois Ele é a fonte de tudo e, acima de tudo, Ele nos criou. Assim, mesmo se o homem estivesse sozinho em nosso mundo, ou estivesse em outros mundos, sua busca por si mesmo ainda assim o levaria à busca pelo Criador.

Há dois caminhos para a percepção da influência do Criador sobre Suas criaturas. O caminho da direita representa o controle pessoal do Criador sobre cada um de nós, independentemente de nossas ações.

O caminho da esquerda representa o controle do Criador sobre cada um de nós, conforme nossas ações, ou em outras palavras, punição pelos maus atos e recompensa pelos bons.

Quando o homem escolhe a época de estar no caminho da direita, ele precisa dizer a si mesmo que tudo o que acontece, acontece somente pela vontade do Criador, de acordo com Seu plano, e nada depende do próprio homem. Nesse caso ele não tem faltas nem méritos, todas as suas ações são determinadas pelos anseios que ele recebe do exterior.

Ele precisa então agradecer ao Criador por tudo o que recebeu Dele. E, compreendendo que o Criador o guia à eternidade, o homem pode sentir amor pelo Criador.

Qualquer progresso somente é possível sob a condição da correta combinação dos caminhos da direita e da esquerda, exatamente na distância média entre eles. Mesmo que o homem comece corretamente, do ponto inicial correto, mas não saiba como checar regularmente e corrigir sua direção, é certo que ele se desviará da direção correta.

Mais ainda, se ele se desviar que seja um milímetro, a qualquer ponto de sua jornada, então, mesmo que ele mantenha o movimento na direção correta, seu erro aumentará a cada passo e ele se distanciará cada vez mais de seu objetivo.

Antes de descer as escadas espirituais, nossa alma é parte do Criador, Seu ínfimo ponto. Esse ponto é chamado à raiz da alma.

O Criador coloca a alma no corpo de forma que a alma, estando no corpo, possa ascender e elevar os desejos corporais, e fundir-se ao Criador novamente.

Em outras palavras, a alma é posta no corpo, o que é o nascimento d uma pessoa em nosso mundo, de forma a que, vencendo os desejos do corpo e apesar deles, possa ascender mesmo durante o tempo de vida da pessoa ao nível que possuía antes de descer ao nosso mundo.

Superando os desejos da carne, a alma ascende ao mesmo nível espiritual do qual desceu, e experimenta prazeres muito maiores do que tinha em seu estado inicial, sendo parte do Criador, e isso se transforma em um volumoso corpo espiritual 620 vezes maior que o ponto original que era antes de descer ao nosso mundo.

Então, em seu estágio completo, o corpo espiritual  consiste de 620 partes, ou órgãos. Cada parte, cada órgão, é chamado um mandamento. A Luz do Criador, que deriva do próprio Criador, que é a mesma coisa, e preenche cada parte da alma, é chamada Torah.

A verdadeira estrada para esse fim corre ao longo do caminho intermediário, que representa a fusão em um único conceito dos três elementos seguintes: o próprio homem, o caminho que ele precisa percorrer, e o Criador.

De fato, todos os três objetos da criação estão presentes: o homem, esforçando-se por retornar ao Criador; o Criador – o objetivo pelo qual o homem está se esforçando, e o caminho segundo o qual o homem pode alcançar o Criador.

Como foi dito muitas vezes, ninguém existe realmente, somente o Criador, e nós somos somente Suas criaturas, dotadas com um senso de nossa própria existência. O homem começa a compreender e perceber isto claramente durante sua ascensão espiritual.

Todas as nossas percepções, ou melhor, as percepções que vemos como nossas próprias, não são nada além de respostas aos Seus atos, produzidas em nós por Ele, isto é, no fim, nossos sentimentos são apenas aquilo que Ele quer que nós sintamos.

Mas até que o homem atinja o completo entendimento dessa verdade, ele vê os três objetos da criação – ele mesmo, o caminho que o conduz ao Criador, e o Próprio Criador – como três objetos separados, em vez de um único total.

Porém, uma vez que o homem tenha atingido o estágio final em seu desenvolvimento espiritual, isto é, ascendido ao mesmo nível do qual sua alma desceu, mas desta vez carregado com desejos carnais, ele aceita o Criador completamente em seu corpo espiritual que abrange a totalidade da Torah, a total luz do Criador, e o Próprio Criador. E então os três objetos que estavam separados na percepção do homem – o homem, seu caminho e o Criador – fundem-se e tornam-se um único objeto: o corpo espiritual preenchido com luz.

Assim, para garantir seu avanço correto, o homem precisa checar a si mesmo regularmente, enquanto prossegue em seu caminho, para ter certeza de que ele se esforça por todos os três objetos, até então separados em sua percepção, com um desejo igualmente poderoso desde o início, como se os unisse em um mesmo nesse estágio inicial, o modo como ele deve vê-los no fim de seu caminho sendo e o modo como eles são agora, mesmo que ele ainda não consiga vê-los assim devido à sua própria imperfeição.

Se ele se esforça por um deles mais do que pelos outros, ele imediatamente se desvia do verdadeiro caminho. O modo mais fácil de checar se ele está no verdadeiro caminho é esforçar-se para compreender as características do Criador, de modo a tornar-se um com Ele.

Se eu não for por mim, quem será? E se eu for só por mim, eu não serei nada. Essa afirmação contraditória reflete a atitude do homem através de seus esforços para atingir seu objetivo: por um lado, o homem precisa sustentar que não há ninguém para ajudá-lo a não ser ele mesmo e agir com a certeza de que seus bons atos serão recompensados e seus maus atos serão punidos, que todas as suas ações têm conseqüências diretas, e que ele mesmo é o construtor de seu próprio futuro. Mas por outro lado ele precisa dizer a si mesmo, “Quem sou eu para desafiar minha própria natureza, por mim mesmo? Mesmo assim, ninguém mais pode me ajudar”.

Mas se tudo acontece de acordo com o plano do Criador, então para que servem os esforços do homem? O fato é que, como resultado do trabalho do homem, baseado no princípio da recompensa e castigo, ele adquire do alto a compreensão do domínio do Criador e ascende a um nível de consciência em que ele vê claramente que é o Criador que rege tudo e que tudo está previsto.

Mas primeiro ele precisa atingir esse estágio, e até que ele o faça, ele não consegue afirmar que tudo está sob o poder do Criador. E até que ele chegue a esse estágio, ele não consegue viver ou agir segundo suas leis, pois não é assim que ele vê o mundo ser regido, isto é, o homem só precisa agir de acordo com as leis de que tem consciência.

E somente como resultado dos esforços do homem em seu trabalho, baseado nos princípios de recompensa e punição, ele merece a completa confiança do Criador e o direito de ver o quadro real do mundo e o modo como ele é regido. E somente então, mesmo que ele veja que tudo depende do Criador, ele se esforça para encontrar o Criador.

Não é possível expelir pensamentos e desejos egoístas do coração e deixá-lo vazio.

Somente preenchendo o coração com anseios espirituais, altruístas, no lugar de desejos egoístas, é possível substituir os antigos desejos por aqueles opostos e eliminar o egocentrismo.

Aquele que ama o Criador certamente sentirá repulsa pelo egocentrismo, pois ele sabe por sua própria experiência o dano causado por qualquer uma de suas manifestações, mas não vê meios de se livrar disto e compreende quase claramente que isto está além de seus poderes, pois foi o próprio Criador que deu essa característica às Suas criaturas.

O homem não consegue se livrar do egocentrismo por seus próprios esforços, mas quanto mais clara for sua compreensão de que o egocentrismo é seu inimigo e assassino espiritual, mais forte será sua aversão por ele, e então isto levará o Criador a ajudá-lo a derrotar esse inimigo, de modo que mesmo o egocentrismo servirá ao seu propósito de elevação espiritual.

Lemos no Talmud: “Eu criei o mundo somente para os completamente justos ou os completamente pecadores”. Que o mundo tenha sido criado para os justos é compreensível, mas não é compreensível por qual razão o mundo não foi criado para aqueles que não são nem completamente justos, nem completamente pecadores, mas sim para aqueles que são completamente pecadores – é realmente possível que o Criador tenha feito o universo inteiro para eles?

O homem vê, involuntariamente, o domínio do Criador, do modo como lhe parece: bom e gentil, se é agradável para ele, ou mau, se ele está sofrendo. Isso é, o homem considera o Criador bom ou mau, dependendo de como ele perceba nosso mundo.

Assim, há somente duas alternativas para a percepção pelo homem do domínio do Criador sobre o mundo: ou ele percebe o Criador, e neste caso tudo lhe parece maravilhoso, ou ele pensa que o domínio do Criador sobre o mundo não existe, e que o mundo é governado pelas forças da natureza. E mesmo que ele compreenda com sua razão que não é assim, são as emoções do homem, e não a razão, que determinam sua atitude perante o mundo, de modo que ele se considera pecador, devido à disparidade entre suas emoções e sua razão.

Ele entende que a vontade do Criador é o nosso prazer, o que somente é possível aproximando-se do Criador, e assim, ele se sente distanciado do Criador, e vê isso como o mal, e se considera um pecador.

Mas se o homem se sente tão baixo que desde a profundidade de seu coração ele apele ao Criador para que o salve, para que Se revele a ele e então lhe dê o poder de escapar da prisão do egocentrismo e penetrar no mundo espiritual, então o Criador o ajuda instantaneamente.

E nosso mundo e todos os mundos superiores foram criados em condições tais que o homem, tendo mergulhado até ser completamente pecador, apele ao Criador e ascenda até ser completamente justo.

O homem somente se torna merecedor de perceber a grandeza do Criador após ter-se livrado de toda vaidade e ter compreendido sua própria impotência, e a baixeza de seus anseios.

E após ele ter-se livrado de seu orgulho superficial, quanto mais ele valorize sua proximidade com o Criador, melhor ele irá percebê–Lo, pois ele poderá encontrar mais nuanças e manifestações na revelação do Criador, e sua admiração evocará sentimentos de alegria em seu coração.

Assim, se ele vê que ele não é de forma alguma melhor que todos os outros à sua volta, que não mereceram a atitude especial do Criador, com a qual ele é favorecido, que não têm idéia da intercomunicação com o Criador, e nem mesmo aspiram a perceber o Criador e compreender o significado da vida e do avanço espiritual, enquanto ele de algum modo mereceu essa atenção especial pela qual o Criador o lembrou do significado da vida e de seu vínculo com seu Autor, se ele pode apreciar o quão única é essa atitude do Criador com relação a ele, ele experimenta infinita gratidão e alegria. E quanto melhor ele possa apreciar essa especial boa sorte, quanto melhor ele possa agradecer ao Criador, quanto mais nuanças e sentimentos ele possa experimentar em cada ponto particular e instante de seu contato com o Superior, quanto melhor ele possa apreciar a grandeza do mundo espiritual que se revela a ele, assim como a grandeza e o poder do Criador onipotente, mais forte será a confiança com que ele antecipa sua futura unificação com o Criador.

Contemplando a vasta diferença entre as características do Criador e Sua criação, é fácil concluir que eles somente podem ser compatíveis sob a condição de que o homem erradique completamente de sua natureza o egoísmo. Se este for o caso, então se poderá dizer que ele não existe mais e assim, nada o separa do Criador.

O homem pode penetrar na vida espiritual e inalar o ar espiritual somente se ele sente que sem vida espiritual ele estará morto, do mesmo modo como o corpo morre quando a vida o abandona, e então, ardentemente ele deseje viver.

Mas por quais meios o homem pode ascender a um tal nível, em que a completa eliminação de todo o auto-interesse e preocupação consigo mesmo, e o anseio por doar tudo de si mesmo se tornem o único objetivo de sua vida, a um ponto tal que, sem atingir seu objetivo, ele se sinta como se estivesse morto?

A ascensão a esse nível acontece gradualmente e se baseia no princípio da contração: quanto mais esforços o homem faça em sua busca por um caminho espiritual, no estudo, em suas tentativas de imitar artificialmente os objetos espirituais, mais ele se convencerá de que ele é incapaz de atingir isto por ele mesmo.

Quanto mais ele estude as obras importantes para seu desenvolvimento espiritual, mais complicado seu material de estudo lhe parecerá. Quanto mais esforçadamente ele tente agradar seus superiores e colegas estudantes, se ele de fato estiver avançando espiritualmente, mais claramente ele sentirá que todas as suas ações são produzidas pelo egocentrismo.

Tais resultados são produzidos pelo princípio “bata-o até que ele esteja pronto”: o homem pode se livrar do egocentrismo somente se ele compreende que o egocentrismo o está matando, por mantê-lo à retaguarda da verdadeira vida, eterna e preenchida com prazer. A aversão do homem pelo egocentrismo, expele o egocentrismo do seu coração.

O mais importante é o desejo de se doar inteiramente ao Criador, baseado na compreensão da grandeza do Criador (dar-se ao Criador significa romper com seu próprio ego e vontade). Nesse momento o homem deve estar completamente consciente daquilo pelo que realmente vale a pena trabalhar neste mundo: valores transitórios ou eternos. Pois nada do que tenhamos criado permanece para sempre, tudo passa. Somente estruturas espirituais tais como pensamentos, atos, sentimentos altruístas são eternos.

Isto é, enquanto se esforça por imitar o Criador em seus pensamentos, desejos e esforços, o homem está, de fato, construindo o edifício de sua própria eternidade.

Porém, seguir o caminho de doar-se ao Criador somente é possível se você compreender a grandeza do Criador. Assim como em nosso mundo, se nós consideramos alguém grande, nós ficaremos felizes em prestar um serviço a essa pessoa e sentiremos que na verdade é essa pessoa que nos fez um favor aceitando algo de nós, em vez do contrário, e nos deu algo, em vez de tomar algo de nós.

Esse exemplo nos mostra como um objetivo interno pode substituir qualquer ato mecânico externo – dar o tomar – por um oposto. Assim, quando maior o homem considere o Criador, mais prontamente ele Lhe doará seus pensamentos, desejos e esforços, mesmo sentindo que ele está obtendo algo do Criador, e não dando a Ele alguma coisa; obtendo uma oportunidade de prestar um serviço – uma oportunidade que somente é doada a alguns poucos merecedores em cada geração.

Isso significa que o principal objetivo do homem é elevar o Criador a seus próprios olhos, isto é, adquirir fé em Sua grandeza e poder, pois esse é o único modo de escapar da prisão do egoísmo e penetrar nos mundos superiores.

Como foi dito no artigo anterior, a razão pela qual o homem experimenta dificuldades excessivas quando ele deseja seguir o caminho da fé sem preocupação consigo mesmo, é o sentimento resultante de estar separado de todo o mundo e suspenso no vazio, sem senso comum, razão ou experiência prévia que lhe dêem apoio, e de ter abandonado seu ambiente, família e amigos em prol de unir-se com o Criador.

A única razão para tal sensação é a falta de fé no Criador, isto é, falta de sensação do Criador, Sua presença e Seu domínio sobre todas as criaturas, isto é, falta do objeto da fé.

Mas assim que o homem começa a sentir a presença do Criador, ele está pronto a doar-se inteiramente ao Seu poder e a seguir seu Criador cegamente, pronto a desintegrar-se completamente Nele, rejeitando a razão, de um modo completamente natural.

É por isso que o principal objetivo do homem é sentir a presença do Criador. E é por isso que vale a pena doar toda a nossa energia e todos os nossos pensamentos à intenção de perceber o Criador, porque imediatamente, ao experimentar isto, desejaremos a unificação com o Criador, de todo o nosso coração.

E é por isso que devemos devotar todos os nossos pensamentos, ocupações, desejos e tempo a esse único objetivo. Essa percepção do Criador é fé!

Esse processo pode ser acelerado, se o homem considera esse objetivo importante. E quanto mais importante isto seja para ele, mais rápido ele atingirá a fé, isto é, a percepção do Criador. E quanto mais importante for a percepção do Criador, mais forte ela será, até que se torne sempre presente no homem.

Sorte é um tipo especial de regra divina que o homem não pode influenciar de modo algum. Mas foi dada ao homem, pelo alto, a responsabilidade de esforçar-se para atingir uma modificação em sua própria natureza, e após isto, o Próprio Criador, tendo apreciado os esforços do homem, o modifica e o eleva acima de nosso mundo.

Antes que o homem faça qualquer esforço, sua atitude deve ser a de que ele não pode contar com nenhuma força divina, força ou alguma atitude especial dirigida a ele pelo alto, mas precisa mergulhar nos negócios, pensando que se ele não fizer isto, ele não atingirá aquilo pelo que está procurando.

Mas depois que seu trabalho, estudo ou qualquer outro esforço esteja concluído, ele precisa pensar que tudo o que ele tenha atingido aparentemente como resultado de seus esforços, ele teria atingido de qualquer modo, mesmo sem fazer nada, porque isso foi preordenado pelo Criador.

Assim, aquele que deseja compreender o verdadeiro domínio, precisa desde o início tentar conciliar essa contradição em sua própria vida.

Por exemplo, de manhã o homem precisa começar sua rotina diária de estudo e trabalho, deixando completamente para trás todos os pensamentos sobre o domínio divino do Criador sobre o mundo inteiro e cada um de nós. E trabalhar como se o resultado final dependesse só dele.

Mas quando o trabalho estiver terminado, ele não deve assumir que o que quer que ele tenha atingido é resultado de seus esforços mas precisa compreender que, mesmo que ele tivesse ficado na cama o dia inteiro, ainda assim ele teria chegado ao mesmo resultado, porque esse resultado já havia sido designado pelo Criador.

Assim, uma pessoa que queira se esforçar para viver uma vida de verdade, por um lado precisa obedecer às leis da sociedade e da natureza, assim como todos os demais, mas por outro, precisa acreditar no absoluto domínio do Criador sobre o mundo.

Todos os nossos feitos podem ser divididos em bons, neutros ou maus. A principal tarefa do homem é elevar seus desejos neutros ao nível de bons, acrescentando mentalmente à sua execução a sua consciência do absoluto domínio do Criador.

Por exemplo, um homem doente, embora esteja plenamente consciente do fato de que sua cura está completamente nas mãos do Criador, ainda assim precisa receber uma prescrição comprovada de um médico renomado e agir como se somente a capacidade do doutor pudesse ajudá-lo a vencer sua doença.

Mas tendo tomado os remédios estritamente de acordo com as ordens do doutor, e tendo-se recuperado, ele precisa acreditar que ele se teria recuperado de qualquer forma devido somente à ajuda do Criador. Assim, embora agradeça ao doutor por seus esforços em seu benefício, ele precisa ao mesmo tempo agradecer ao Criador. E assim ele transforma um ato neutro em um ato espiritual. E fazendo assim com relação a todos os seus atos neutros, ele gradualmente espiritualiza todos os seus pensamentos.

Os exemplos e explicações dados acima são necessários para os que não compreendem, pois situações similares tornam-se estorvos em seu caminho para a elevação espiritual, principalmente porque eles pensam que conhecem os princípios do domínio, tentam fortalecer artificialmente sua crença na onipresença do domínio divino e, em vez do trabalho duro, em vez de fazer um esforço para demonstrar sua fé no Criador, ou simplesmente por preguiça, eles assumem, mesmo sem ter começado a trabalhar, que tudo está no poder do Criador e por isso seus esforços não são necessários. E pior ainda, fechando seus olhos em alegada fé cega, eles esquivam-se das questões sobre fé, e evitando ter que responder a essas questões, roubam de si mesmos qualquer chance de avanço espiritual.

Em nosso mundo, “ganharás o pão com o suor de teu rosto”, mas uma vez que o homem tenha ganhado alguma coisa, é duro para ele admitir que o resultado não dependeu de seu esforço ou habilidades, mas foi o Criador que fez tudo por ele. Porém ele precisa se esforçar para fortalecer sua fé no absoluto domínio do Criador sobre ele, “com o suor de seu rosto”.

Mas é devido a essas tentativas e esforços para assimilar a aparentemente contraditória natureza do domínio divino, que tem origem em nossa cegueira, - precisamente, do choque que essa contradição provoca, tornando difíceis de entender a aproximação das ações que nos são requeridas, que aquele que está tentando compreendê-las cresce e experimenta novas sensações espirituais.

Tudo o que existia antes do início da criação era o Criador.

A criação começou quando o Criador individualizou uma certa parte de Si mesmo, doando a ele, no futuro, certas características dessemelhantes a Ele mesmo.

Dotando essa parte com um senso dela mesma, o Criador a extraiu de Si mesmo. Esse ponto é nosso “ego”. Mas já que não existem lugar ou distância, a distância das características é percebida por esse ponto como um ocultamento do Criador, isto é, ele não pode senti-Lo, pois há escuridão entre eles, gerada pelas características egoístas desse ponto.

Quando esta vasta distância é sentida pelo homem? Especificamente quando o Criador quer atrai-lo para mais perto de Si. Se o Criador não quer atrai-lo para perto de Si, ele não sente nenhum abismo, nem nenhuma distância entre ele e o Criador.

O abismo negro percebido pela parte são, de fato, os problemas diários, preocupações, sofrimento trazido por dificuldades financeiras, ou doenças, ou família – resumindo, problemas da vida comum, devidos a tudo o que o Criador construiu no ambiente da parte, de modo a poder influenciá-la através desse ambiente. Como e por quê?

Para mostrar ao homem que, para salvar-se do sofrimento, ele precisa se livrar do egocentrismo, o Criador, através de seu ambiente o traz a uma condição de miséria tão insuportável – crianças, trabalho, dívidas, doenças, problemas na família – que para ele a vida parece um fardo acima de toda resistência, como resultado de seu desejo de atingir alguma coisa, e então a única coisa que ele quer é não querer nada, isto é, não ter interesses pessoais, evitar todos os desejos egoístas, porque eles trazem tal tormento.

Assim, o homem não tem outra saída senão pedir ao Criador que o salve do egocentrismo, pois somente assim ele pode escapar de todos os seus problemas, pois é seu próprio egocentrismo que lhe traz todos os sofrimentos.

E é por isso que Rabbi Ashlag escreveu em seu Prefácio ao livro “Talmud Esser Sfirot” (Seção 2): “Mas se você ouvir com seu coração a uma famosa questão, tenho certeza de que todas as suas dúvidas sobre se você deve estudar a Kabbalah desaparecerão sem deixar traço”.

E isto é assim porque essa questão, vinda diretamente do coração do homem, e não de sua inteligência ou aprendizado, essa questão que clama em seu coração é sobre a vida, sobre seu significado, sobre o significado de todos os seus sofrimentos que muitas vezes são maiores que seus prazeres, sobre uma vida tão dura que a morte parece uma libertação fácil e uma salvação, sobre uma vida em que não há fim para os remoinhos de dor até que nós finalmente a deixemos, completamente exaustos e devastados. E quem, no fim, aproveita tudo isso, ou a quem eu agrado assim, ou o que mais eu espero desta vida?

E embora cada um de nós seja subconscientemente incomodado por essa questão, incessantemente, às vezes ela nos atinge de surpresa, deixando-nos loucos, tornando-nos incapazes de fazer qualquer coisa, fragmentando nossa mente, mergulhando-nos num abismo de desespero e na compreensão de nossa própria insignificância – até que tenhamos sucesso em bloquear isto de nossa mente e em encontrar novamente a solução tão conhecida de todos, e prosseguir existindo, assim como ontem, e flutuar na correnteza da vida, sem pensar nisso muito profundamente.

Mas como foi mencionado antes, o Criador dá ao homem tais sensações com o propósito de fazê-lo gradualmente compreender que todos os seus infortúnios, todas as suas angústias têm origem no fato de que ele tem um interesse pessoal no resultado de suas ações, que seu egocentrismo, isto é, sua essência, sua natureza, faz com que ele aja “para seu próprio bem”, e que por isso ele está constantemente sofrendo porque seus desejos não são realizados.

Porém, se o homem se livrasse de todo interesse pessoal em qualquer coisa, ele instantaneamente se libertaria de todos os grilhões de sua essência e observaria tudo o que o cerca sem nenhuma dor ou angústia.

O método para se libertar da escravidão do egocentrismo encontra-se na Kabbalah. E o Criador propositadamente colocou entre Ele e nós, entre Ele e o ponto em nosso coração, nosso mundo e toda a sua miséria, de modo a trazer cada um de nós à compreensão da necessidade de nos purgar do egocentrismo, a causa de todas as nossas mágoas.

Deixar para trás sua mágoa e perceber o Criador – a fonte do prazer – somente é possível sob a condição de um verdadeiro desejo, por parte do homem, de livrar-se de seu egocentrismo. No mundo espiritual um desejo é igual a um ato, pois verdadeiros desejos, de todo o coração, são realizados imediatamente.

Mas o Próprio Criador leva o homem a uma resolução firme e final de livrar-se de todo interesse pessoal em qualquer uma das situações da vida, fazendo-o sofrer tanto nessas situações que ele só tem um desejo – deixar de sofrer, o que somente é possível se ele não tiver nenhum interesse pessoal, egoísta, nos resultados de todos os problemas da vida em que ele está envolvido.

Mas onde, então, está nosso livre arbítrio, nossa liberdade de escolha – que caminho tomar, o que escolher na vida? Sim, o Próprio Criador induz o homem a escolher uma certa solução. Colocando-o numa situação carregada de tal miséria que a morte parece preferível a esta vida, mas sem lhe dar a força para acabar com isso e escapar do sofrimento, e então, em meio a angústia insuportável, fazendo brilhar de repente a luz da única solução, como um raio de sol através de densas nuvens – nem morte, nem escape, mas libertação de todo interesse pessoal no resultado de qualquer assunto mundano. Essa é a única solução, somente isso pode assegurar paz e repouso do sofrimento insuportável.

E certamente, não há liberdade de escolha nisto, porque o homem é forçado a essa escolha por uma compulsão de escapar do sofrimento. E o livre arbítrio e a liberdade de escolha se manifestam na continuidade do caminho escolhido, uma vez que o homem tenha vencido seu estado depressivo, e fortalecido sua própria determinação, procurando uma saída do terrível estado em que ele estava até então, dessa vez por si mesmo, em ação, já que o objeto de todos os seus pensamentos tornou-se “na intenção do Criador”, pois viver “na sua própria intenção” traz sofrimento. E esse trabalho incessante de controle sobre seus pensamentos é chamado o trabalho de purificação.

O sofrimento em razão do interesse pessoal deve ser tão agudo que o homem sinta-se pronto para “viver com um pedaço de pão e um gole de água, e dormir no chão nu” – nada além de extirpar de si mesmo o egocentrismo, o interesse pessoal na vida.

E se ele tiver atingido a condição interna que o capacita a sentir-se feliz fazendo isto, então ele entra numa esfera espiritual chamada “o mundo futuro”, ou “o mundo vindouro”.

 

Autor: Rabbi Michael Laitman
Tradução do Inglês: Luiz Oliveira e Eduardo Franco

 

 

 

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