Conversas sobre espiritualidade


Em memória do Kabbalista Rabbi Baruch Ashlag, 1995

 O Criador age sobre nós usando os vários elementos de nosso mundo. O homem deve compreender que os eventos que lhe acontecem não são nada mais do que mensagens do Criador. Se o homem responde corretamente à ação divina, ele captará claramente o que o Criador espera dele, e irá senti-Lo.

O Criador não age somente sobre às pessoas em nosso ambiente, mas usa todas as coisas existentes em nosso mundo. A estrutura de nosso mundo é tal, que o Criador pode nos influenciar e nos atrair para mais perto do objetivo da criação.

Nós dificilmente sentimos a presença do Criador nas situações diárias que precisamos enfrentar. Isso é porque nossos atributos nos colocam em oposição ao Criador e tornam impossível para nós, senti-Lo. Tão logo o homem adquire atributos similares àqueles do Criador, ele começa a senti-Lo proporcionalmente.

Quando as dificuldades nos acometem nós nos fazemos a pergunta: “Por que isso está acontecendo comigo? Por que o Criador está fazendo isso comigo?” Não existem punições assim, embora muitas sejam mencionadas na Torah. Há somente “incentivos”, forçando o homem a progredir em direção ao que ele sente egoisticamente.

A consciência das coisas é somente um mecanismo auxiliar, que nos ajuda a compreender propriamente o que sentimos. Quando figuramos nossa vida como uma gigantesca sala de aula, com o Criador onisciente agindo como um professor, que nos doa conhecimento, estamos preparados para receber. Isso progressivamente desperta em nós o sentimento do Criador em nossos órgãos sensoriais espirituais recém-nascidos.

O Criador fez uma escada para nossa ascensão. É uma escada móvel. Essa escada apareceu no sonho de Jacó e foi descrita pelo Baal HaSulam, Rabbi Yehuda Ashlag e seu filho Baruch Ashlag.

Nós voltamos as costas à fonte do conhecimento simbolizada por essa escada, e somente através de esforços conseguiremos retornar e começarmos a nos mover em direção ao Criador. É por isso que o Criador nos envia professores, livros, assim como companheiros de estudo.

O estudante que segue os ensinamentos da Kabbalah vive no mundo físico mas é sobrecarregado por seu egoísmo. É por isso que ele não consegue entender corretamente os sábios que estão fisicamente próximos dele mas que também evoluem nos mundos espirituais.

Se o estudante consegue deixar de lado sua razão, suas opiniões, e segue o caminho que é exposto pelos escritores dos autênticos livros de sabedoria, ele pode se vincular inconscientemente com o espiritual.

Nós não vemos ou sentimos o Criador em nosso mundo e assim é impossível para nós fazer com que nosso egoísmo se renda a Ele. Os pensamentos de um professor ou um mestre podem penetrar um estudante e induzir, nele, a fé. Isso corresponde ao OHP espiritual (Ozen, ouvido; Hotem, nariz; Pe, boca, representando os vasos de recepção), descendo pelo GE (Galgalta e Eynaim, representando os vasos de doação) do nível abaixo (isto é, os estudantes). Ascender ao nível do OHP do mestre significa ligar-se à sua sabedoria e seus pensamentos. Do mesmo modo, se um estudante mergulha no OHP de um texto de sabedoria, ele ascende temporariamente e o espiritual é revelado a ele.

Sempre que lemos as obras dos justos, o Baal HaSulam, Shimon Bar Yochai, nós nos ligamos diretamente com eles através da luz circundante, a Or Makif. Nós somos então iluminados e nossos vasos de recepção, purificados.

É importante, na leitura, ter em mente a estatura do autor. Se ele está vivo ou morto não importa realmente. Nós sempre podemos nos ligar a ele usando nossos sentimentos, enquanto estudamos suas obras.

Há muitos caminhos conduzindo ao Criador e Ele usa muitos meios para agir sobre nós. Qualquer dificuldade ou obstáculo no caminho do estudante, em particular a morte de um mestre, pode ser considerada uma oportunidade para transformar a própria pessoa, em um nível individual.

 

Conversa em um jantar na comemoração de Sucot, 1995

Todas as correções que ocorrem no partuf Z”A do mundo de Atzilut, protótipo do homem em nosso mundo, estão incluídas em um processo espiritual chamado “Sucot”. O homem, o vaso espiritual, a alma, é similar ao estado de Z”A no mundo de Atzilut. A luz que a alma recebe vem da interação de Bina, Z”A e Malchut no mundo de Atzilut. Yehuda Ashlag disse: “A Sucá reúne dois conceitos: a cobertura feita de pequenos ramos e resíduos vegetais. Similarmente se o homem pode construir uma proteção contra os prazeres do alto ele descobrirá o Criador e Sua glória”.

Quando o homem constrói a cobertura da Sucá ele simboliza a construção da tela, o massach, que lhe permite refletir o prazer proporcionado pela percepção do Criador. Esse trabalho é chamado “man de ima”, é como uma prece para receber a força de se opor ao egoísmo. Se a prece do homem é sincera, a força lhe é enviada e ele pode receber a luz divina com a ajuda de uma tela. Essa luz é a luz da sabedoria e compreensão, a “or chochmah”. Essa luz traz toda informação sobre o estado espiritual presente do homem, e o grau atingido, assim como os “comos e porquês” dos eventos que lhe ocorrem. Uma vez que o homem tenha compreendido os atributos de seu degrau espiritual ele adquire o nome desse degrau. Cada novo degrau mas alto que ele atinja irá corresponder a mais perfeição e novos nomes, enquanto ele se move acima. Durante esse processo, novos atributos são adquiridos.

A missão das almas que encarnam em nosso mundo é atingir o nível em que se encontravam antes de descer e entrar na carne do corpo. Essa é a tarefa do homem durante uma de suas vidas, apesar da oposição de seu corpo: retornar à raiz de sua alma, o nível espiritual em que ele residia antes da encarnação de sua alma. Algumas almas precisam somente ascender de volta a seu nível anterior. Nesse caso seu caminho, aquele através do qual elas ascendem, é composto de 6000 degraus chamados “anos”, e por isso a noção dos 6000 anos de existência. Há também algumas almas especiais que não apenas precisam retornar a seu nível anterior, mas conduzem sua progressão através dos mundos de ABY”A e atingem o nível do partzuf de AS”G no mundo de Adam Kadmon. Esse nível é chamado “7000 degraus” ou “7000 anos”. Elas também podem atingir o nível do partuz de A”B no mundo de Adam Kadmon chamado “8000 anos”. Ou até mesmo mas alto, o nível do partzuf de Galgalta, chamado “9000 anos”. Finalmente, algumas almas atingem o nível dos “10000 degraus” ou “10000 anos”, e seu conhecimento e percepção fazem-nas capazes de penetrar o Mundo sem Fim – o Einsof. Almas assim encarnarão somente uma vez em dezenas de gerações. A humanidade testemunhou pouquíssimas dessas almas. Os grandes Kabbalistas possuem uma alma assim.

Observar o mandamento de construir a Sucá simboliza a fusão no nível mais alto entre o Criador e a criação.

Como isso acontece?

Z”A, que inclui 6 sefirot, fornece a orientação de acordo com a origem da luz: Norte, Sul, Leste, Oeste, Acima e Abaixo. Malchut recebe a luz das sefirot de Z”A, de seus 6 atributos. É por isso que o etrog é primeiro aplicado ao lulav, abrindo a porta para que a bênção seja pronunciada. Isso se refere à observação do mandamento da Sucá e do Lulav. Uma pessoa que cumpre um mandamento não deve acreditar que com seus gestos mecânicos, irá cumprir ações espirituais. Isso nunca acontece. O homem não pode cumprir nada espiritual com a ajuda de suas mãos, pés e lábios! Uma verdadeira ação espiritual somente acontece quando o homem atrai uma tela contra seus desejos egoístas, abrindo-se à luz divina e dedicando seu prazer ao Criador.

A festa de Sucot dura 7 dias, à imagem da luz entrando nas 7 sefirot de Z”A de Bina. Cada dia corresponde a um degrau-nível espiritual, uma nova luz em uma nova sefirah. O 7o dia, quando a luz é transferida de Z”A para Malchut, é chamado “Simchat Torah”, também a “Alegria da Torah”. Essa fase corresponde à reunião de toda a luz recebida por Malchut, que desce dentro das almas, e à luz geral chamada “Torah”. Essa luz não entra na Sucá, isso corresponde a uma festa separada. A Sucá corresponde à luz que passa através de Z”A com a ajuda de uma tela durante a celebração dos sete dias de Sucot. Simchat Torah corresponde à passagem da luz da Torah, Z”A dentro de Malchut, e sua completa união.
A noite que precede Simchat Torah é chamada “Leil hashana raba”. É uma noite especial, durante a qual toda a luz circundante se reúne em volta de Z”A. Como essa luz está em volta de Z”A, esse degrau é chamado “noite”, antes de sua transformação na luz interior, “or pnimi”, que em seguida entrará em Malchut.

Qualquer ato desempenhado com uma intenção “dedicada ao Criador” é espiritual; o mesmo feito desempenhado com uma “intenção auto-orientada” é material e egoísta. O Kabbalista iniciante acha muito difícil observar fisicamente os mandamentos, algo que é fácil para as pessoas religiosas, enquanto ele deve se esforçar para observá-los. Uma das dificuldades para o Kabbalista é que ele analisa todos os seus pensamentos, ações e eventos de acordo com seus impactos em seu caminho espiritual. Ele mede a importância desses faturas em sua progressão, em sua relação com o Criador.  Como a conexão com o Criador fomenta alta concentração e esforços internos contra o egoísmo, o homem encontra dificuldades para desempenhar atos físicos supostamente ligados ao espiritual. Nenhum ato físico pode ter influência sobre o mundo espiritual, o Criador. A relação entre o homem e o Criador é tecida no coração do homem. A observância mecânica dos mandamentos permanece necessária porque isto corresponde ao desejo do Criador.

Todos os esforços sobre si mesmo ajudam o homem a progredir espiritualmente. Esses esforços o ajudam a manter o foco na existência do Criador enquanto estuda Kabbalah, e assim ele pode compreender Seus feitos e atingir o objetivo da criação. O egoísmo nos permite fazer alguma coisa somente quando é certo que haverá benefício, e que disso derivará prazer. É preciso pedir ajuda ao Criador durante a prece, para conter as forças do egoísmo. Esse é o único caminho direto para Ele e à medida em que o tempo passa, a conexão entre o homem e o Criador vai se clarear e tornar-se mais fundamentada. Graças a esse processo o homem começa a entender o que lhe acontece, por que ele experimenta certos sentimentos e o que ele precisa fazer. Esses novos estados, induzidos, são usados como um trampolim que propele o homem para o próximo degrau-nível espiritual.

O que é um segredo, ou um ensinamento secreto? Um desejo secreto continua a existir, a menos que o homem o penetre. O mesmo ocorre na vida cotidiana, que pode ser obscura e incompreensível em um dia, óbvia e auto-evidente no próximo. Somente uma pessoa individual pode abrir as portas de um segredo e fazer exaustivos esforços para entender o que não era claro antes.

Não é possível medir os esforços em nosso estudo porque eles pertencem à esfera dos sentimentos e assim, são difíceis de expressar. É difícil captar o que outras pessoas sentem.  Falando genericamente, todos os esforços feitos em nosso mundo correspondem a alguma atividade egoísta. Um homem que transforma seus prazeres, através da procura por pequenos fragmentos de luz, normalmente se esforça para alcançá-los usando objetos de nosso mundo. Isso vem do fato de que ele é motivado por desejos egoístas. Em Kabbalah um esforço é algo que o homem não pode cumprir sem ferir seu próprio ego. Após ter testado todas as possibilidades, sem benefício, o homem volta-se ao Criador e dirige a Ele seus pedidos. Esta é uma verdadeira prece, em seguida a um genuíno esforço.

Somente o Criador pode nos erguer acima de nosso egoísmo; não há nada que o homem possa fazer a respeito disso. Se o homem ainda vive sob a impressão de que ele pode melhorar espiritualmente, ou de que ainda há algumas outras opções, seu egoísmo o impedirá de genuinamente apelar ao Criador. O egoísmo não lhe permitirá entrar na benevolência do Criador enquanto o homem não estiver convencido de que se ele recusar o caminho da espiritualidade ele estará morto, e de que a jornada somente pode ser iniciada com a ajuda do Criador. Esse caminho não é similar a nenhum outro, pois é impossível perceber o próximo movimento. Cada novo movimento acontece em total escuridão e a experiência prévia é inútil para que se compreenda a progressão futura. Se não fosse assim, o homem usaria sua razão, em vez de colocar sua fé no Criador acima de seu próprio conhecimento e compreensão.

A autenticidade dos esforços da pessoa, e a correta direção, podem ser verificadas se a pessoa constantemente redireciona seus pensamentos na direção do Criador. È preciso saber que cada nova sensação é enviada pelo Criador, porque isto corresponde ao Seu desejo. O Criador nos dá o que podemos compreender no momento presente. Esse processo é privado e não pode ser comparado a nenhum outro. Tudo o que podemos fazer é nos tornarmos conscientes de nosso egoísmo, nosso inimigo, e enfrentá-lo em vez de balançar ao sabor do vento. Esse estágio é partilhado por todos os homens, embora cada um o perceba diferentemente.

Não há ligação direta entre a intensidade de nosso egoísmo e a duração de nossa jornada espiritual. Nada acontece externamente, tudo se baseia na energia que o homem investe em seu pedido de ajuda ao Criador. Esse pedido é difícil de formular porque o egoísmo sente-se humilhado nessa batalha.

Sem a ajuda do Criador, e a expansão de Sua luz dentro do kli, o kli não se torna altruísta. Sem os atributos da luz o kli permanece totalmente egoísta e incapaz de se mover em direção à espiritualidade. Não há outro modo de atingir espiritualidade.

Após ter explorado todas as opções, o homem se convence de que não há saída e seu egoísmo está então pronto a aceitar ajuda. De modo a que atinja esse objetivo, o homem precisa permanentemente colocar o plano espiritual acima do físico, mesmo que ele escolha um objetivo completamente egoísta no início, isto é, o desejo de ganhar alguma coisa da espiritualidade.

Nós precisamos usar todos os meios disponíveis hoje no mundo. Enquanto os desejos egoístas diminuem, nós precisamos selecionar meios para nos manter com nosso desejo de estudar Kabbalah. Ganhar respeitabilidade, honras, poder, são fatores dirigentes do verdadeiro desejo de sentir o Criador. Após, torna-se importante aos olhos do homem, fazer algo para agradar o Criador.

Nunca devemos descartar os meios à nossa disposição, e ao mesmo tempo, nunca esquecer que o Criador age sobre nós usando os vários elementos de nosso mundo.

 

No jantar  "seuda mafseket" antes do "Yom Kippur" (dia da expiação), 1996

“Talmid hakham", o aluno dos sábios, esses termos descrevem aquele que estuda diretamente com o Criador. O que se pode estudar com o Criador? O único atributo do Criador é agradar Sua criação. Se o homem deseja adquirir esse atribuo para agradar ao Criador assim como o Criador agrada ao homem, ele se torna o “aluno do Criador”.

Desde que o homem faça esforços para trabalhar, o Criador ouvirá seu pedido de ajuda. Esse processo precisa ser sincero, já que não é possível camuflar-se do Criador. A progressão espiritual é o caminho interno da pessoa; não é necessário revelá-lo a outras pessoas, ou senão as preces podem ser em vão. Quando as impressões espirituais começar a ser percebidas não há palavras para descrevê-las, assim, um homem que procura o divino nunca deve falar sobre o nível em que se encontra.

Quando o homem não pensar em nada mais a não ser em progredir na direção do Criador, quando todo o seu tempo e energia forem dedicados a essa progressão, o Criador satisfará seus desejos.

Primeiro o homem precisa saber o que é necessário para sua correção, mas ele não capta claramente o que é um kli (vessel) pronto a receber luz divina, assim como a natureza dessa luz. As obras de Yehuda e Baruch Ashlag fornecem instruções e um método global para progredir espiritualmente. O Baal HaSulam deu-nos especificações sobre como empreender nossa progressão espiritual e nos aproximarmos do Criador.

Por que jejuamos no Yom Kippur? Se é dito a uma pessoa doente que não coma durante um dia completo, e que se vista de branco para curar uma doença, ela fará isso por seu próprio bem. Isso é como a maioria dos homens pratica atos ligados às prescrições religiosas.

Os mandamentos precisam ser observados somente porque correspondem à Sua vontade. Nós não compreendemos como o espiritual está conectado ao nosso mundo, e como os mundos espirituais tomam o aspecto de nosso mundo material.

O homem estuda: se ele compreende que ele não compreende, isso já é uma verdade. O Criador dá ao homem essa impressão porque quer trazê-lo para perto de Si. Por outro lado, se Ele não quer trazer o homem para perto de Si, ele lhe dará satisfação em seu estudo, trabalho e família. A progressão espiritual somente é possível onde há um sentimento de insatisfação.

Geralmente o homem é educado para sentir sua própria perfeição. É desse modo que os professores tiram do ser humano as possibilidades de ascender ou cair. Em nossa sociedade moderna a educação é baseada em princípios de auto-satisfação. Isso mata o homem porque seu egoísmo é satisfeito.

O mesmo acontece com nosso desenvolvimento espiritual porque somente o grau de insatisfação estimula a inspiração de ir além dos limites dos hábitos e da preguiça, de modo a crescer espiritualmente.

Esforços individuais, em quantidade e qualidade, permitem-nos atingir o objetivo que traçamos para nós mesmos. Todos os esforços – estudar, discutir ou disseminar a sabedoria da Kabbalah – beneficiam enormemente aqueles que os fazem. Tornam-se uma abertura para que outros em nosso mundo se familiarizem ao Criador.

Para ser autêntico, o conhecimento kabbalístico precisa ser produzido no coração e nos sentimentos do homem. As ciências podem ser estudadas mas elas não modificarão o caráter humano, elas não exigem do pesquisador uma transformação de sua perspectiva existencial. As ciências lidam somente com uma pequena parte da criação, a externa, que está confinada nos estreitos limites de nosso mundo. Mesmo assim, atualmente, a ciência começou a descobrir que existe uma relação entre a experiência e o experimentador. Na Kabbalah o pesquisador somente consegue obter conhecimento se suas qualidades correspondem àquelas do objeto de seu estudo.

 

Jantar de rosh chodesh Tishrei (lua nova), setembro de 1996

O universo é feito de dois componentes: o Criador e Seu desejo de dar prazer, e a criação e seu desejo de receber prazer. O desejo de receber prazer, quando corrigido por uma tela anti-egoísmo, é chamado “partsuf”, um elemento espiritual. Quando o partsuf permite que a luz do Criador entre, e a dedica ao Criador, ele realiza o “zivug de akaa”. Essa ação é denominada “mandamento”. Essa luz no partsuf é chamada “Torah”. Quando o homem desempenha um mandamento físico com intenção espiritual ele recebe a luz da Torah. Seu egoísmo é corrigido e dois mundos são unidos.

Enquanto observa os mandamentos neste mundo, o homem ainda precisa definir o que ele quer obter. A observância mecânica não leva ao progresso espiritual, somente coloca o homem no nível “espiritualmente inanimado”. Somente a intenção pode ajudar o homem a entrar no mundo espiritual. Isso também define seu nível espiritual e o grau de percepção da luz espiritual, o Criador. “Um mandamento sem intenção é como um ‘corpo sem espírito”, o que significa que é desempenhado no nível “espiritualmente inanimado”.

O ensinamento da intenção correta é o propósito e a tarefa da Kabbalah. A Kabbalah representa a parte oculta da Torah e é baseada em seus ensinamentos preliminares sobre o estudo do homem e sobre como definir suas verdadeiras intenções. Finalmente o homem se torna consciente de seu egoísmo e verdadeira natureza que impele seu desejo para receber prazer sem considerar as opiniões, pensamentos e desejos das outras pessoas.

Quando embarca em sua viagem espiritual, o homem não sabe por que ele acorda cedo de manhã, estuda e comparece a leituras. Tudo isso acontece inconscientemente. Somente quando o Criador Se revela a ele, o homem entende que foi guiado para agir desse modo e então, tudo se torna claro. Os mundos não podem existir sem o homem que os percebe. Somente quando o homem percebe um dos fragmentos da luz suave e infinita, ele chama o fragmento percebido de “este mundo”. Por outro lado todos os graus do mundo são latentes no homem. Esses graus de conhecimento espiritual correspondem à progressiva aquisição de conhecimento localizada além dos limites de nosso mundo.

O homem é um ponto egoísta na criação e ele precisa amadurecer espiritualmente para progredir. Somente essa maturação – ou seja, a abertura do ponto no coração – encontra o incentivo inicial, todas as outras ações tem origem nela.

Nós somente somos animados pelo desejo de sentir prazer em todos os estágios de nosso desenvolvimento. Esse desejo é chamado “klipá” (pele, casca) porque essa força protege o homem enquanto ele ainda não tiver encontrado o nível em que ele deseje remover a casca para saborear o fruto. O fruto é a klipá corrigida, o desejo de doar sem retorno, de agradar, assim como o Criador. A klipá é uma força espiritual. O corpo espiritual da klipá é composto de uma cabeça e um corpo. A cabeça da klipá é chamada “conhecimento”, e o corpo, “desejo de receber”. A “cabeça” de um corpo espiritualmente puro é chamada “fé acima da razão” e o “corpo” é chamado “ação de doar sem retorno”. Somente o estudo assíduo pode erguer o homem acima de estados indesejados, em que ele chafurda sem ajuda. O estudo diário purifica nossos pensamentos e nos mantém em movimento na direção correta.

Pergunta: Por que nós dizemos “lechayim” – à vida – quando bebemos?

O vinho simboliza a luz do “Chochmah”, a luz da vida. Para salientar que nós recebemos a luz da vida com a ajuda de uma tela nós dizemos “lechayim”. Desse modo nós recebemos o brilho da luz sobre nós, em nome da vida. Isso não é recebido incorretamente via desejos não reparados ou corrigidos. Se esse fosse o caso, a luz desapareceria e traria “morte espiritual”.

Pergunta: Há perguntas erradas ou inúteis?

Não, porque se há uma pergunta, isso significa que um desejo necessita ser satisfeito, por isso a pergunta tem o direito de ser perguntada. Mas no que se refere à resposta, isso é um pouco mais complicado. Às vezes não é possível dar uma resposta em razão dos sentimentos de quem pergunta diferirem daquele que fornece a resposta. É preciso encontrar uma resposta às suas próprias perguntas.

Se o homem tem preocupações espirituais isso significa que há ligações pessoais entre ele e o Criador.

Mesmo que elas não sejam sentidas claramente, essas ligações existem. Somente o homem pode encontrar suas próprias respostas, mesmo que ele não entenda o que está acontecendo. O mundo espiritual não é nada mais do que o desejo de receber e a tela (massach) que se opõe a ele. Uma decisão tomada no kli (vaso) começa seja com um desejo (o kli egoísta) ou o massach (um kli espiritual doando sem retorno) ou sua fusão (a recepção por um vaso espiritual).

O homem precisa se esforçar para aceitar tudo aquilo que lhe acontece pois todos os acontecimentos são meios para o progresso espiritual. Não há uma receita para nenhum caso particular e o homem precisa encontrar o que ele pode ou não pode fazer, assim como aplicar os métodos expostos por nossos mestres.

Quando o homem compreende que após ter tentado tudo ele não pode escapar do pequeno universo de seu egoísmo, ele chama a Deus e suplica por ajuda. O egoísmo sente que isso é o começo do fim. Somente nessa situação extrema o Criador pode ajudar o homem, porque o homem então está pronto para aceitar Sua ajuda.

Nós todos atingiremos o estado de “gmar tikkun”, a plenitude da correção. O que quer que aconteça, nós todos encontraremos nossa raiz no “Ein Sof” (mundo sem fim). Tudo foi ajustado em direção da correção final, o fim dos desejos egoístas. A noção do “fim do mundo” na vida cotidiana difere radicalmente do seu verdadeiro significado em Kabbalah.

O estudo das verdadeiras fontes pode acelerar nossa progressão em direção ao espiritual, e nos permite viver o espiritual nesta vida. Esse caminho é chamado o caminho da Torah. A progressão também pode acontecer através do sofrimento, seguindo a reencarnação da alma, mas de qualquer modo o resultado é o mesmo. O caminho da Torah não significa reduzir ou evitar o sofrimento. Esta não é a força condutora daquele que segue o caminho da Torah.

O homem transforma o sofrimento induzido pelos desejos egoístas mundanos em sofrimento correspondente à falta do espiritual e assim, reduz o tempo necessário para atingir seu objetivo.


Jantar de rosh chodesh Tevet (lua nova), Tevet 1995

O desejo humano de conhecer o divino iguala-se à mais intensa aspiração para conhecer a si mesmo. O egoísmo obstrui a aspiração humana porque é da natureza humana procurar auto-satisfação e a saturação de seus desejos. Toda vez que o homem deixa de embarcar em ilusões, imediatamente ele deseja conhecer o CRIADOR, sua Fonte, sua verdadeira natureza.

O Baal HaSulam estava disposto a falar com todas as pessoas, a procurar alunos, e ele publicava um jornal cujos excertos mais tarde tornaram-se um livro, “Matan Torah” (A Outorga da Torah). Porém, na prática, ele teve poucos alunos que quiseram estudar. O paradoxo está em que antes havia kabbalistas e não alunos, enquanto presentemente muitos querem estudar, mas não há kabbalistas.

É A PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA QUE ENFRENTAMOS UMA TAL SITUAÇÃO: o desejo de estudar é impulsionado desde baixo, enquanto do alto nós nos encontramos arremessados para uma crescente escuridão espiritual. Essa é uma situação construtiva porque dá a conhecer que nosso desejo de progredir espiritualmente é genuíno; as respostas recebidas serão proporcionais à sua intensidade.

O que define o poder do amor entre o homem e o Criador? Esse é o grau do sofrimento e da paixão, o grau de sofrer em razão da ausência da luz dentro do kli e da paixão seguinte à penetração da luz divina quando a vinculação acontece. Isso significa que se o homem consegue sentir verdadeiros desejos dentro de si mesmo, seu desejo será satisfeito.

O problema das pessoas que tentam entrar ou perceber os mundos espirituais é que elas confiam na razão, ignorando que a razão é produto de nossa natureza egoísta. Essa natureza nos impede de nos tornarmos íntimos do mundo espiritual, e normalmente os principiantes em Kabbalah seguem esse caminho.

Estamos habituados a aumentar nossa percepção das coisas primeiro, e após, colocar a fé acima da razão. Isso nos ajuda a entender que um kli preenchido com egoísmo encontra o desejo de sentir prazer, e não a intenção de agradar ao Criador. Um kli espiritual é o desejo de agradar o Criador através de nossos feitos.

Nós abrimos livros, estudamos e tentamos entender com nossa razão. Porém é impossível sentir o que transcende o intelecto. O mesmo acontece com a barreira (machsom) que separa nosso mundo do mundo espiritual.

NOSSA PERCEPÇÃO DAS COISAS, NOSSO CÉREBRO, SÃO SECUNDÁRIOS PORQUE ELES PROCESSAM INFORMAÇÃO E SATISFAZEM NOSSOS DESEJOS. O CÉREBRO É APENAS UM MEIO AUXILIAR. TÃO LOGO O HOMEM ENTENDA QUE A CHAVE PARA QUE ELE É AUMENTAR SUAS SENSAÇÕES E NÃO SUA CONSCIÊNCIA DAS COISAS, O CAMINHO PARA A ESPIRITUALIDADE SE ABRIRÁ PARA ELE, CLARAMENTE.

O HOMEM NORMALMENTE NÃO ACREDITA EM SEUS SENTIMENTOS. PRIMEIRO ELE PRECISA ENTENDER, ENTÃO SENTIR E DEPOIS AGIR. ENTÃO POR QUE NOS FOI DADO UM CÉREBRO, SE ELE REPRESENTA UM TAL OBSTÁCULO? PARA QUE NÓS POSSAMOS USÁ-LO E AO MESMO TEMPO PROGREDIR COLOCANDO A FÉ ACIMA DA RAZÃO. O CAMINHO QUE PÕE A FÉ ACIMA DA RAZÃO É BASEADO EM TENTATIVA E ERRO E É CHEIO DE DIFICULDADES. ESSE CAMINHO AJUDA O HOMEM A COMPREENDER QUE TODAS AS SITUAÇÕES NA VIDA SÃO AJUDA ENVIADA PELO CRIADOR PARA ESTIMULAR A PROGRESSÃO ESPIRITUAL.

O Criador nos envia toda espécie de forças e elas são desenvolvidas de modo que o homem possa aumentar seu auto-controle. Uma regra de ouro precisa sempre ser aplicada e isso é segredo. Nós precisamos ocultar nosso objetivo de nosso próprio egoísmo e mais ainda, de outras pessoas! O estudante de Kabbalah precisa se comportar discretamente e não mencionar seu objetivo ao recém-chegado. Se esse princípio não é cumprido, o estudante pode atrair contra si forças negativas muito poderosas.

Quando estudantes de Kabbalah se reúnem, eles não precisam falar de seu amor pelo Criador, nem de seus sentimentos um pelo outro, porque fazendo assim eles somente expressam sua opinião pessoal e sentimentos subjetivos.

A distância que separa o homem do CRIADOR é similar a uma escada com degraus. Nós ocupamos o degrau mais baixo e o Criador, o mais alto. Nossa tarefa é escalar essa escada e encontrar o Criador. Há muitos modos de progredir. Um deles consiste em estímulo de baixo, o que é nosso caminho: o homem anseia por espiritualidade e elevação, começa a ler livros etc... Porém há outro caminho, de estímulo do alto, pelo qual o Criador nos ergue e nos atrai para perto Dele.

Qual é a diferença entre esses dois caminhos? O estímulo do alto corresponde à elevação constante de nosso mundo, não importam aa aspirações pessoais.

Aqueles que manifestam aspirações pessoais são guiados em direção ao estudo da Kabbalah e é preferível para o homem tomar vantagem do que lhe foi enviado. O homem precisa se comportar seriamente em seu trabalho assim como com relação às capacidades que lhe são enviadas.

Há 32 centelhas dentro de nós, “lamed bet nitzuzim”, o “lev haEven” ou coração de pedra. Isso corresponde a um tipo de egoísmo que não pode ser corrigido quando a luz geral chamada “Messiah” é corrigida. Somente esse tipo de luz pode nos libertar do egoísmo. Nós precisamos perseverar em nossos esforços para nos livrar do egoísmo, e nosso desejo de ajudar o “Messiah” irá aparecer e libertar o mundo de suas cadeias.

 

Autor: Rabbi Michael Laitman
Tradução do Inglês: Luiz Oliveira e Eduardo Franco

 

 

English | Hebrew | Russian | French | German | Italian | Spanish | Yidish | Amharic | Arabic | Japanese | Greek | Czech | Finnish

Korean | Bulgarian | Dutch | Georgian | Polish | Farsi | Latvian | Lithuanian | Estonian | Portuguese | Filipino | Ukrainian | Turkish

The website kabbalah.info is maintained by
the
"Bnei Baruch" group of kabbalists

Copyright ©1996. Bnei Baruch. All rights reserved.